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A epidemia das emergências e a catástrofe como campo do possível

 24/03/2020  Etiquetas: ,

Texto original: Sull’epidemia delle emergenze e sulla catastrofe come campo del possibile, de Jack Orlando e Sandro Moiso

Tradução: Coletivo Voz Rouca BH

Disponível aqui.

O Coronavírus, um espectro que ronda o mundo. Não é mais aquilo do comunismo, nem sequer da pandemia; é antes de tudo aquilo da Catástrofe, e da sua articulação imediata: a Emergência. De fato, o medo despertado por essa epidemia não é totalmente compreensível se não for situado em sua estrutura geral e seus significados mais profundos. Não é por causa de uma pandemia que as pessoas tremem, é por causa do medo do colapso, por causa desse permanente sentimento de incapacidade de manter o modo atual de produção e de vida capitalista para sempre.
O coronavírus teve um timing perfeito, ocorrendo em meio a uma conjuntura que já apresentava o entrelaçamento do início de uma nova crise financeira e econômica macroscópica, com uma profunda crise política das instituições locais, nacionais e globais e com uma crescente tensão para a guerra, que apenas nos últimos dias assumiu uma nova aceleração, com massas de refugiados pressionando as fronteiras da Europa e com a Turquia tentando conquistar a Síria e ganhar uma primazia que não seria mais apenas regional.
Uma situação de muitas possibilidades que, no entanto, encontra parte das associações empresariais1 pronta para recebê-la, mas não encontra ninguém nas fileiras do “partido revolucionário”, se assumirmos sempre que ainda exista um. Isso ocorre porque parece que, de nossa parte, uma vez que as bússolas do conflito foram perdidas, resolvemos relatar a emergência seguindo a narrativa da mídia, sem entender suas complexidades ou as margens de ação que ela nos apresenta.

A discussão desenvolvida no âmbito dos movimentos, neste caso, nos parece paradigmática: uma oscilação entre os pólos do cientificismo e do politicismo, um tanto alternados com a conspiraçionismo antiamericano de velho estilo. Em suma, um inevitável olhar para o próprio umbigo enquanto ao redor tudo queima.

Com os seguidores da ciência concordamos, por exemplo, que é impossível não levar em conta a dimensão concreta de uma epidemia real com efeitos reais e que, a menos que tivéssemos estudado medicina, não possuímos as habilidades mínimas para dizer quão reais ou não são certas ameaças. O problema desse raciocínio, no entanto, é que ele nos faz correr o risco de abdicar das nossas posições em virtude da raison d’état e do senso comum: em qualquer caso, não podemos esquecer que a tarefa do antagonismo é sempre procurar os espaços de conflito e inimizade oferecidos pelas contradições da realidade, forçá-los até onde possível, fazê-los explodir possivelmente, em vez de esperar o retorno a uma normalidade que sempre nos foi hostil.

No entanto, há mais algumas perguntas a serem feitas sobre a questão da ciência.
Hoje nesse âmbito há muita confusão: tirando os céticos e os comentaristas, por um lado, há aqueles que fingem que esse é um ramo asséptico, imaculado e intocável do conhecimento humano e, por outro, há quem intencionalmente condene todos os seus aspectos negando sua validade em absoluto. Em efeito, mesmo sem comprometer a confiabilidade de médicos e cientistas, como podemos confiar totalmente na ciência médica produzida nos laboratórios dos gigantes da indústria farmacêutica, em suas invenções interessadas, em seus negócios nos sistemas de saúde de todo o planeta2?
Devem ser denunciados os vínculos estreitos entre pesquisa, organizações de saúde, corte de gastos públicos e investimentos em pesquisas voltadas apenas para o lucro. Mas a denúncia não basta, precisamos mais que isso, assumindo responsabilidades que muitas vezes parecem ir além da capacidade real dos movimentos de pensar, organizar e agir. Este é um trabalho enorme. É necessário refundar o conhecimento e liberar suas possibilidades, científicas e não científicas, que tem sido limitadas ou removidas pelo interesse puramente financeiro e político. A reapropriação do conhecimento, não apenas científico, é um trabalho que deve ser desenvolvido durante a luta, como um de seus motores.
Até porque o triunfalismo científico e tecnológico que o modo de produção atual manifestou nas últimas décadas hoje mostra toda a sua fraqueza. O famoso “progresso” com o qual os porta-vozes do capital justificaram qualquer empresa, da corrida espacial à obrigação de qualquer tipo de vacinação, até o extrativismo e à devastação ambiental, bem como todos os triunfalismos relativos a 4,0, 5,0 ou n.0 mostram hoje toda a sua fragilidade e o vazio das suas certezas. Também por esse motivo, não denunciar o trabalho sistemático de remover tudo o que pode ser um obstáculo à iniciativa privada significaria arriscar ver frustradas em massa até as realizações reais da ciência com C maiúsculo. Aquele que sempre se moveu sem esconder suas incertezas e dúvidas sobre os resultados alcançados, torna esses últimos, sempre momentâneos e incompletos, o verdadeiro motor do avanço da pesquisa e do conhecimento altruísta.
O que dizer para aqueles que ignoram ou subestimam o tamanho do fenômeno Coronavírus, tomando-o como mera técnica governamental? A análise da situação apenas do ponto de vista político, sem levar em conta os fenômenos reais, muitas vezes nos leva a perder os contornos da realidade e acabamos aplicando conceitos teóricos mecanicamente e, assim, produzindo os fatos a partir de nossas próprias opiniões.
Pensando dessa maneira, terminamos tomando o inimigo por uma espécie de monolito no qual não há diferença ou contradição entre os atores em campo: mídia, Estados, grandes capitais, organizações internacionais, todos desaparecem para se tornar um único Moloch, no qual toda emergência é pura propaganda, todas as medidas tomadas visam diretamente a supressão da liberdade e da dissidência organizada, quando a primeira pode ser facilmente reprimida em qualquer momento de emergência e a segunda, banalmente, não se sabe onde estaria. Ao continuar nesse caminho, logo nos veríamos defendendo as virtudes burguesas de trabalhar e consumir.
Paradoxalmente, ao não abordar a questão real da epidemia e reduzi-la a um truque político, perdemos completamente os termos da operação, nos destacamos da realidade e nos trancamos no beco sem saída da retórica, também perdendo de vista o campo de possibilidades. Aos teóricos da conspiração geopolítica temos pouco a dizer. Saiam de casa, respirem ar fresco e perguntem a si mesmos se existem bons capitalismos, antes de rastrear uma doença que surgiu na China como um maléfico plano norteamericano3.

No momento, esse é o teor da discussão sobre o vírus, mas acreditamos que ele se aplica a todas as outras Emergências e é pelo contrário precisamente o significado profundo dessas emergências perenes que precisamos investigar, e não suas formas contingentes.
Existe uma estreita relação entre a declaração de emergências nacionais, ou de outro tipo, e o controle político-militar, pelo Estado e seus aparatos repressivos, de territórios e opinião pública.
Praticamente todas as emergências correspondem, de fato, a um tipo de estado de guerra ao qual os cidadãos, independentemente de sua condição social, política ou etária, devem responder juntos pelo bem da pátria e da unidade nacional diante de um perigo externo.
Esse significado não varia na presença de guerras, epidemias ou catástrofes mais ou menos naturais.
Aceitar a colaboração com os aparatos estatais sempre significa curvar-se à vontade de nosso inimigo mais feroz4.
É como se, diante de uma guerra declarada pelo “nosso” Estado, estivéssemos obrigados por definição a cumprir as medidas tomadas para combater os riscos. Os jovens da Federação Socialista da Juventude da qual saiu a fração intransigente do PSI, que mais tarde se tornou, de fato, a fração comunista de Livorno, entenderam o engano desta posição desde a Primeira Guerra Mundial5. Foi o disfattismo6 revolucionário que guiou os jovens socialistas em sua luta contra a guerra e o colaboracionismo, mesmo quando essa se disfarçou de “colaboração em tempos de perigo” e de ajuda humanitária, depois de Caporetto, em direção aos refugiados venezianos investidos pelos exércitos austro-alemães7.
Coisas antigas para alguns, mas extremamente atuais para aqueles que querem se opor a todas as estratégias adotadas para colocar os dissidentes de volta no “doce”caminho da compatibilidade sistêmica.
Mas então, alguém pensará: não precisaremos mais ajudar as populações afetadas por desastres e calamidades? Devemos recusar a solidariedade ativa aos migrantes em fuga? Claro que não, mas isso terá que ser feito, e essa é outra tomada de responsabilidade hoje muitas vezes ignorada, nunca esquecendo de denunciar os autores dos desastres (militares ou naturais), as causas intimamente ligadas ao lucro e ao interesse privado ou à competição imperialista e, acima de tudo, através de uma organização própria, sempre que possível.

Não estamos interessados em imitar a Cruz Vermelha, os escoteiros ou a Igreja; estamos sempre interessados em manter o conflito social aberto e em expansão.
Portanto, a análise que deve interessar ao militante revolucionário não é a que procura o pêlo no ovo da teoria ou se inclina para a razão de estado para evitar causar danos onde não é competente. A única análise que deve nos interessar é a que parte da situação dada para apreender suas fraquezas e agir sobre elas; nossa única preocupação deve ser sempre quebrar os elos do domínio; nós somos os inimigos irredutíveis deste mundo, toda fraqueza dele deve ser explorada.

Portanto, o campo de batalha que nos é dado é o de Emergência como ator inesperado que, em pouco tempo e no limiar de uma crise financeira, política e militar macroscópica, pode deixar em pânico a classe dominante, colocando-a em crise na sua capacidade de gerenciar a catástrofe. É verdade que o risco faz parte do capitalismo, também é verdade que o risco e o capitalismo não excluem o fracasso.
O alarmismo de emergência geralmente serve para justificar tudo e “surpreender” o público8. Mas o acúmulo perene e catastrófico de emergência sobre emergência também nos fala da impossibilidade de manter esse modo de produção, antes de tudo, quando sua primazia sobre a vida também põe em perigo a si mesmo e revela toda a sua fragilidade: o gigante chinês que corre o risco de desmoronar devido a uma má influência é uma imagem bastante reveladora.
Na necessidade de encontrar uma solução para emergências, acaba-se experimentando técnicas absolutas para controlar a vida, mas também para minar o mesmo modo de produção capitalista que se deseja proteger. Então, aqui estão os atores financeiros rugindo, as bolsas de valores em queda, os chefes de Estado tranquilizando os mercados. A primeira emergência é na casa do inimigo.

A partir daqui, vemos como, dia após dia, a situação de caos institucional, governada quase apenas pelo autoritarismo e a militarização, mostra bem mais do que se disse até então sobre a contenção social. Há algum tempo, não por acaso que a guerra civil tem sido mencionada como a única resposta dos Estados às reivindicações de movimentos e cidadãos, entendida como pacificação, repressão e militarização dos territórios e das respostas institucionais: isso ocorre porque eles foram esvaziados de qualquer função parlamentar, política, econômica autônoma e simplesmente deixados a mercê dás decisões tomadas em outros foros9.
É por isso que eles permanecem em pé diante de todos os eventos e conflitos inesperados apenas graças à cola do autoritarismo e medidas excepcionais, como a militarização dos territórios.
Portanto, a figura do Estado faz a parte, por enquanto, do para-raios à capital, e esse “estado de emergência” nos fala de sua atuação em campo como ator forçado a governar a catástrofe, mas a crise da qual ele é vítima há algum tempo se faz fortemente visível num momento em que o controle do território e a compressão das liberdades são as únicas ferramentas a sua disposição, embora não possa garantir uma saída do problema; as medidas de contenção necessárias acabam fragmentando o grupo das grandes potências e, assim, enfraquecendo também as indicações daqueles órgãos supranacionais que se encontram em uma posição difícil ao transmiti-las através de uma cadeia de comando que rapidamente se emaranha. Além disso, a dificuldade de gerenciamento da emergência para a qual não se estava preparado, sua inserção em uma seqüência acelerada e perene de emergências, causa falhas no dispositivo das quais é possível filtrar o bacilo de subversão.
Aqui está uma tarefa para nós, a do disfattismo10 anticapitalista.

Aqui entramos em um nível muito material e vemos que o terreno do conflito está nessa insubordinação espontânea que parte das necessidades da vida. Aqui também, não apenas na ação estatal, há revelação da guerra civil em andamento, a luta por recursos e as possibilidades de vida: não é o medo do controle ou de um golpe biopolítico que desencadeia inimizade, é o fato de que eles nos trancam em casa e nos proíbem de sair, mas não podem nos fornecer, até agora, assistência médica ou suprimentos; é o fato de que eles massacraram o Sistema Público de Saúde até não conseguirem mais fazer exames de coronavírus nos enfermeiros11; é o fato de que fecharam escolas, universidades, cinemas e museus, proibiram as viagens, mas mesmo assim nos forçam a trabalhar e nos expõem a riscos sem mais nada em troca; é o fato de que, em caso de emergência, os vampiros do mercado tiram proveito disso, elevando os preços dos bens necessários sem que entre as medidas consideradas draconianas esteja previsto um controle de preços.
Essa resposta não pode evitar descontentamento, conflito e necessidade de auto-organização, e aqui o antagonista militante deve se inserir para cultivar hostilidade e descontentamento, organizar a explosão social. Por exemplo, denunciando as condições e apoiando hoje os pedidos daqueles que estão na linha de frente; como as denúncias dos médicos que denunciam abertamente os escassos meios disponibilizados para os que estão com coronavírus e precisam lidar com isso nas clínicas e os hospitais. Atacando aquele sistema de saúde privado que, no momento da emergências, se mostrara totalmente inútil e insuficiente.

Ou reivindicando a salvaguarda de salário e emprego para todos os trabalhadores de empresas afetadas pela crise epidêmica, denunciando a tentativa de diminuir o primeiro e de alterar as condições de trabalho, talvez por meio de parcelamento e insegurança do mesmo por meio da difusão do teletrabalho, mesmo na fase pós-epidêmica. Combatendo qualquer tentativa de reduzir os espaços de luta, como, de fato, exige o pedido da Comissão de garantia de uma moratória das greves até o 31 de março (aqui). Ou, novamente, organizando o bloqueio dos fluxos e a redistribuição autônoma das mercadorias e dos bens sobre os quais especulam os chacais, nos shopping centers deixados abertos quando foi proibido fazer manifestações e, em geral, no mercado no qual o Estado preferiu proteger a acumulação de capital.
Investigando, por exemplo, o quanto a ação cruzada do Erdogan e da União Europeia (insuperável em sua hipocrisia) está levando à formação de uma nova consciência comum entre os imigrantes de nacionalidades diferentes e muitas vezes hostis umas com as outras12. Esta consciência se encontra sedimentada nos lagers onde por muito tempo foram trancados, e soldada pela ação comum concreta, mais que pelas promessas vazias de solidariedade daqueles que as exploram e aprisionam ou as rejeitam, e pela reação à violência dos aparatos fascistas e das patrulhas do Aurora Dourada13. Uma consciência, que se move independentemente da solidariedade dos movimentos europeus, mas que nos fala de uma forte conflitividade espontânea e autodeterminação e exige que, de uma vez por todas, repensemos uma abordagem política revolucionária do fenômeno das migrações e de seu principal sujeito.
Além de todos os outros exemplos que poderiam ser dados, o que precisa ser sublinhado é precisamente o seguinte: diante da desintegração dos Estados e de seus representantes partidários, a única alternativa razoável, se não a única alternativa em geral, é a auto-organização política dos territórios e dos movimentos que os habitam, a construção de suas articulações em escala global. Infelizmente muitos hoje, que estão nos movimentos e nos territórios, ainda se entregam a reflexões redutoras, quase nunca de natureza geral, mas, na melhor das hipóteses, maximalistas. Parece que por muito tempo o movimento antagonista se acostumou a não assumir todas as responsabilidades que a situação atual das relações sociais deveria impor.
É nas brechas da vida cotidiana do domínio que se encontram as possibilidades a serem apreendidas e organizadas; o estado de emergência, nesse sentido, apenas exaspera e expõe um dispositivo que é implementado diariamente de maneira enigmática, enquanto a catástrofe, enquanto discurso governamental que se refere à obediência e à unidade, permitem vislumbrar toda a fraqueza dos soberanos, é o canto dos cisnes que precede a sua morte e abre as possibilidades de colapso que, para aqueles que mantêm firme a bússola da demolição da modernidade capitalista, são um tesouro a ser saqueado rapidamente.
Todo o resto é bobagem ditada pelo medo de enfrentar o inimigo real em escala global e da maneira mais adequada. Esta não pode mais ser o parlamentarismo, a democracia representativa burguesa ou o choro pelas vítimas, nem sequer a fraca defesa dos últimos resíduos do que há um tempo chamávamos Movimento.

Temos que sair de uma vez por todas dessa psicose da emergência contínua que nos faz correr atrás das notícias das primeiras páginas mais barulhentas, como fracos jornalistas iniciantes. Nosso pensamento estratégico deve cortar e atravessar esse manto de emergências e atingir profundamente o inimigo, em sua íntima catástrofe14.
O nascimento da civilização capitalista, perto do século XVI, foi antecipado por dores do parto que agitaram um período de séculos de guerras, tumultos, saques de novos continentes, mudanças climáticas15 e epidemias16 que Albrecht Dürer conseguiu compreender nas xilogravuras feitas para ilustrar o Apocalipse de João em 1498.
Seremos capazes de fazer o mesmo desenhando nas lutas e nas consciências a imagem da sociedade futura, da qual há muito tempo sentimos as dores do parto e os movimentos telúricos que a anunciam?

Precisamos novamente de heroísmo coletivo, determinação inquebrável e incansável, inteligência estratégica, lucidez e afastamento de tudo o que ainda representa o legado miserável do atual modo de produção. Se é verdade que vivemos no tempo dos estados de exceção e emergências permanentes, a regra básica que nos guia é apenas uma: sair da emergência e saber viver a catástrofe para aproveitar seu campo de possibilidade.

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NOTAS

1 – Pense-se no presidente da Confindustria [principal sindicato patronal da Itália], Boccia, que hoje em dia continua a jogar gasolina sobre o fogo das Grandes Obras Inúteis e Prejudiciais (mas consideradas necessárias para o renascimento da economia), confirmando o discurso desenvolvido, a partir da década de 1950, por Amadeo Bordiga sobre a estreita interconexão entre dinâmica capitalista, saques econômicos e catástrofes “naturais” – A. Bordiga, Drammi, gialli e sinistri della moderna decadenza sociale, Iskra editore, Milano 1978.

2 – Sobre a possível “criação” do Covid-19 em laboratório, veja aqui: https://it.businessinsider.com/una-ricerca-del-2015-descri…/

3- Pode-se encontrar dois artigos recentes retirados de Repubblica (https://www.repubblica.it/…/l_america_ha_paura_del_virus-…/…) e Corriere (https://www.corriere.it/…/chi-paga-tamponi-curegli-american…) sobre medos americanos.

4 – Veja, por exemplo, a virada institucional proposta por Macron e pelo primeiro-ministro [francês] Edouard Philippe para aprovar a lei de pensões na Assembléia Nacional em 1º de março, aproveitando a proibição de manifestação estabelecida para “enfrentar” o Coronavírus.

5 – Os autores fazem referência à linha política escolhida pelo Partito Socialista Italiano (PSI), que em 1915 votou no Parlamento a favor da entrada na I Guerra contra Alemanha e o Imperio Austro-Hungaro. No seio do PSI surgiu então uma dissidência radical contrária a isso, dissidência esta que em 1917 celebrou a Revoluçâo de Outubro, em 1919-20 participou no chamado Biennio Rosso (um periodo de extraordinárias greves e revoltas sociais nas fábricas e nos campos), e em 1921, no congresso do PSI em Livorno, realizou a cisão que deu vida ao Partito Comunista d’Italia (PcdI), depois renomeado Partito Comunista Italiano (PCI) [NdT]

6 – Essa palavra se refere, em tempos de guerra, à atividade propagandista dirigida a provocar o colapso do próprio país. [NdT]

7 – Veja a este respeito: L. Gorgolini, Gioventù rivoluzionaria. Bordiga, Gramsci, Mussolini e i giovani socialisti nell’Italia liberale, Salerno editrice, Roma 2019

8 – É dessas últimas horas a “surpresa” da vitória de Biden na super terça-feira das eleições americanas, como se já não se soubesse que Biden é o único candidato elegível ao establishment americano, democrático e não.

9 – Sobre isso, até os europeistas mais convencidos começam a duvidar:
“Hoje a União Européia corre o risco de ser atingida por duas emergências globais […] A primeira é a epidemia de coronavírus. A segunda é a nova crise de migrantes reaberta pela Turquia, que usa os refugiados sírios como arma de chantagem. […] Ambas as crises são o resultado do fracasso dos Estados-nações em enfrentar emergências que seriam da sua competência. As políticas de saúde não prevêem gestão comum, assim como a vigilância das fronteiras externas e dos fluxos migratórios se enquadra na soberania das capitais, que há muito deixam de se entender em uma única linha de conduta. Mas as emergências não respeitam os tratados europeus. Assim, depois que todo governo da UE tenta impedir a epidemia por conta própria, todos devem se render tardiamente ao fato de que o contágio é um problema comum. Mas isso não basta para decidir centralizar a luta contra o vírus a nível europeu, precisamente por causa da incerteza sobre como agir. Qual é o equilíbrio entre a proteção da saúde, a defesa da economia e a vida social de nossas comunidades? Como ninguém sabe a resposta, todos pensam de têm sua própria verdade no bolso e querem aplicá-la à sua maneira ” (Andrea Bonanni, Due crisi, stesso fallimento, la Repubblica 2 marzo 2020).

10 – Uma possibilidade imprecisa de tradução para este termo seria: “derrotismo”. Não encontrou-se um termo exato em português para precisar o significado de disfattismo. [NdT]

11 – Veja aqui (https://www.nextquotidiano.it/coronavirus-cosa-succede-os…/…) as consequências do corte nos gastos com saúde na área de Lodi e aqui (https://www.huffingtonpost.it/…/allospedale-di-cremona-va-s…) de maneira mais geral na região da Lombardia.

12 – “Subindo o galho mais alto, na zona rural entre o Edirne turco e a região grega da antiga Trácia, o vengança afegão sabe que tudo depende de seu sinal. Não se vai mais sozinho. A coalizão dos rejeitados apresentou uma estratégia. Pela primeira vez os contrastes étnicos, as brigas nos campos entre paquistaneses e indianos, os ciúmes entre afegãos e iranianos, a desconfiança dos somalis, a melancolia dos sírios, dão lugar a uma aliança sem precedentes […] se desenrolaram ao longo de quilômetros e quilômetros de fronteira. Impossível para os guardas gregos selar a fronteira” Nello Scavo, Bastonate e spari sui migranti in fuga dalla Turchia alla Grecia, Avvenire 3 marzo 2020.

13 – Partido neo-nazista grego [NdT].

14 – A etimologia da palavra catástrofe remonta ao verbo grego καταστρέϕω (katastrepho) = eu a viro de cabeça para baixo. A partir deste verbo, o substantivo καταστροϕή (katastrophé) = capotamento, capotagem…
O termo foi usado pelos escritores gregos para indicar um resultado muitas vezes inesperado, mas sempre desastroso, doloroso e triste do drama ou de algum fato ou evento humano ou natural. Assim, a palavra catástrofe, que por si só teria um valor neutro, indicando simplesmente uma mudança radical e muitas vezes repentina na situação, foi usada, desde os tempos antigos, como sinônimo de desastre, ruína, destruição… Para nós a tarefa de reinterpretá-lo em seu significado genuíno de mudança radical.

15 – Veja, para o clima do século XVI e a chamada “pequena glaciação”, Le Roy Ladurie, Tempo di festa, tempo di carestia. Storia del clima dall’anno mille, Einaudi, Torino 1982.

16 – Para o peso que as mudanças climáticas e as epidemias tiveram no contexto do fim do Império Romano, veja o muito recente Kyle Harper, Il destino di Roma. Clima, epidemie e la fine di un impero, Einaudi, Torino, 2019.

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Pubblicato da:  In Categoria: America Latina, Opinioni, Português

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