Apontamentos sobre a epidemia em curso

Desde Facção Fictícia

Traduzimos e divulgamos aqui o texto feito no calor do momento pelos companheiros anarquistas de Torino, Itália.

 Publicado originalmente no site Macerie

O texto que segue foi escrito por alguns companheiros, em parte redatores do blog e em parte não, na tentativa de entender como se orientar no meio desta tempestade.

Estes dias, forçadamente fechados em casa, parece-nos uma ótima ocasião para tentar refletir e deixar registradas algumas considerações sobre o que está acontecendo, sobre os possíveis cenários que se abrirão e, enquanto companheiros, em que sentido será o caso de dirigir a nossa atenção.

Os apontamentos que seguem são algumas considerações imediatas sobre as quais tentaremos retornar e continuar a refletir nos próximos tempos, e não têm nenhuma pretensão de exaustividade.

Um esclarecimento inicial sobre as muitas vozes que tendem a minimizar esta epidemia nos parece devido. Não somos médicos nem enfermeiros, mas, na nossa visão, o absurdo de tal posição pode ser contestado no âmbito da teoria revolucionária. Quem se propõe, como objetivo de vida, a mudar radicalmente o presente deveria ser o primeiro a saber que da relação entre Capital e Natureza nascem inevitavelmente tragédias e catástrofes que, ao contrário do que diz a narrativa dominante, não têm nada de “natural”, que não são eventos improváveis, mas que, dependendo do período, eles têm certa frequência, como as crises econômicas. Terremotos em zonas populosas, desertificação, poluição dos lençóis freáticos, alagamentos e epidemias são fenômenos filhos dessa mesma lógica. A epidemia com a qual nos deparamos, com todas as suas especificidades, não nos parece que seja de natureza diferente desta série de catástrofes produzidas pelo regime capitalista. Especificidades que, naturalmente, não são negligenciáveis e sobre as quais valerá a pena debruçar-se no decorrer destas linhas.

AS ORIGENS

A doença se desenvolveu no mercado de Wuhan, capital de Hubei, uma das regiões mais populosas da China. Região que se tornou a fornalha do país: aqui está o coração pulsante feito de reatores químicos e fábricas de cimento que sustentaram o crescimento industrial do gigante asiático. A grande quantidade de material de construção e a formação de engenheiros qualificados de que a região é o berço ampararam todo o período pós-crise de 2008: o Estado chinês, de fato, lançou naqueles anos imponentes projetos infra estruturais e imobiliários.

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¿Qué es una fosa clandestina? @pajaropolítico @InsydeMx

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[Texto de Fabrizio Lorusso desde el blog de Insyde (Instituto para la Seguridad y la Democracia) del portal ANIMAL POLïTICO]

Desde que comenzaron a buscar a su hermano Tomás, quien fue desaparecido en Huitzuco, Guerrero, el 5 de julio de 2012, Mario Vergara y su hermana Mayra han destapado decenas de entierros con restos humanos en los cerros de su ciudad, contribuyeron a fundar el colectivo Los otros desaparecidos de Iguala en 2014 y han denunciado desde entonces la complicidad o inoperancia de las autoridades ante la crisis de derechos humanos y el panorama de terror en México. Junto con otros grupos pioneros de familiares de personas desaparecidas en el país, de Tijuana a Veracruz, de Sinaloa a Coahuila, conformaron un movimiento de buscadores y buscadoras que hoy es vigoroso y articula Brigadas Nacionales de Búsqueda, ya sea en vida, o bien, en terreno, descubriendo parajes escondidos en donde puede haber cuerpos colocados.

En varias ocasiones, Mario ha dicho que “México es una fosa”, una expresión tan real y cruda como retórica, siendo una metáfora de la violencia, la oscuridad y la impunidad que envuelven al país y que, a la vez, es paradójicamente un punto de partida obligado para reflexionar sobre nuestro presente y buscar destellos de luz y vida. Cuando los huesos de un ser querido se transforman en “tesoros de inestimable valor”, el sentido y las afectividades de una vida se concentran en ellos, en su búsqueda, y la identidad de quien fue desaparecido es restituida al mundo social del cual había sido violentamente sustraída. Continua a leggere

Diário Trabalhista do #Covid19 no Brasil: A necropolítica do governo Bolsonaro na pandemia do COVID19

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De Osmar Alencar Jr. e Fabrizio Lorusso

[Versión en portugués y, en seguida, en español – 30/03/2020 – Publicado también en Desinformémonos link]

Os conceitos de biopolítica e necropolítica tornaram-se cada vez mais relevantes nas ciências sociais, e até na mídia, para interpretar as contradições e violências da época em que vivemos, caracterizada por um sistema capitalista mundializado, neoliberal, financeirizado, cuja raiz é a superexploração do trabalho e a concepção do produto como riqueza de poucos e pobreza/miséria de muitos.

Podemos entender a biopolítica como uma forma de poder e gestão da vida humana, da população e da sociedade como parte da espécie, a partir de seus constituintes biológicos e existenciais. Também, entendida como uma função “protetora” e, ao mesmo tempo, controladora e disciplinadora, sobre corpos e grupos humanos, exercida pelo Estado por meio de leis e políticas públicas.

Essa função protetora do Estado é exercida pelo biopoder, o poder do Estado de regular a sociedade em vários aspectos da vida, desde o nascimento até a morte. Ganhou espaço na Europa Ocidental com o Welfare State. Tal poder passou a decidir sobre quem proteger ou não na população, estabelecendo hierarquias étnicas, de classe ou de gênero contra aqueles que supostamente representam uma “ameaça” para o resto da sociedade: por exemplo, isso acontece com a criminalização da migração e negação de serviços de saúde para refugiados; com a escolha sobre qual vida deve prevalecer, se a de jovens ou de idosos, quando respiradores são escassos em um hospital lotado por centenas de pessoas infectadas pelo COVID-19 ou quando opta por retirar a população jovem do isolamento social, em meio a uma pandemia, para não afetar os mercados.

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Diário Trabalhista do #Covid19 no Brasil: Os trabalhadores primeiro, o capital depois

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[Tercera entrega (24/03/2020) para lamericalatina.net en portugués del académico y activista Osmar Alencar desde el estado brasileño de Piauí – Terza consegna per lamericalatina.net in portoghese dell’accademico e attivista Osmar Alencar dallo stato brasiliano del Piauí]

Por Osmar G. Alencar Jr

Na pandemia do Coronavírus (Covid-19), ao mesmo tempo em que as medidas de isolamento social são a solução encontrada, até agora, para minimizar o contágio da população e reduzir as mortes nos estratos mais vulneráveis da população, são, também, a ruína para o modo de produção capitalista, pois a redução ou a suspensão da produção, da circulação e do consumo de bens e serviços acelera a tendência decrescente das taxas de lucros, paralisa os mercados e aumenta sua crise sistêmica.

Por isso, medidas de isolamento social são questionadas pelo capital e seus seguidores. Assistimos, pela mídia, depoimentos de lideres empresariais brasileiros contestando tais medidas, com argumentos rasteiros, invocando a estatística para explicar que os números de morte no mundo e no Brasil são muito baixas em relação a outras doenças, e, que, portanto, uma “gripezinha” não pode parar a produção, a circulação e o consumo de mercadorias e serviços no Brasil. Nessa perspectiva, tudo isso se resumiria a uma histeria coletiva e descabida. Continua a leggere

Diário Trabalhista do #Covid19 no Brasil: O CAPITAL FINANCEIRO TEM DE DAR A SUA CONTRIBUIÇÃO

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[Segunda entrega (23/03/2020) para lamericalatina.net en portugués del académico y activista Osmar Alencar y de Alyne Maria Barbosa de Sousa, desde el estado brasileño de Piauí – Terza consegna per lamericalatina.net in portoghese dell’accademico e attivista Osmar Alencar e di Alyne Maria Barbosa de Sousa, dallo stato brasiliano del Piauí. Osmar G. Alencar Jr., professor do Departamento de Economia da UDFPar e doutor em Políticas Públicas; Alyne Maria Barbosa de Sousa, professora do Departamento de Gestão e Negócios do IFPI e doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente].

O CAPITAL FINANCEIRO TEM DE DAR A SUA CONTRIBUIÇÃO: Flexibilização da LRF, Revogação da EC 95 e Suspensão do Pagamento do Serviço da Dívida Pública

As medidas econômicas adotadas pelo Governo Bolsonaro para conter a crise econômica aprofundada pela pandemia do Corona vírus são insuficientes, para não dizer apavorantes para a economia brasileira.
Antecipar parte do 13° salário dos aposentados e pensionistas, reduzir juros do crédito consignado para clientes do INSS de 2,08% para 1,8% ao mês, diminuir a taxa de juros do cartão de crédito de 3% para 2,7% ao mês; reduzir o encaixe compulsório dos bancos junto ao Banco Central para aumentar a oferta monetária e baixar os custos do crédito para as famílias e empresas, liberar recursos do DPVAT e do Censo do IBGE para o SUS, declarar calamidade pública do governo federal para poder alterar a meta do resultado primário brasileiro em 2020, e dar auxílio emergencial no valor de R$ 200,00 por pessoa, durante 3 meses, para apoiar os trabalhadores informais, desempregados e microempreendedores individuais que sejam de família de baixa renda serão medidas inócuas para ativar a economia e proteger os cidadãos e os não-cidadãos brasileiros no ano de 2020. Continua a leggere

Diário Trabalhista do #Covid19 no Brasil: ABAIXO OS LUCROS: todos os recursos para preservar a vida da classe trabalhadora

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[Primera entrega (22/03/2020) para lamericalatina.net en portugués del académico y activista Osmar Alencar desde el estado brasileño de Piauí – Terza consegna per lamericalatina.net in portoghese dell’accademico e attivista Osmar Alencar dallo stato brasiliano del Piauí]

ABAIXO OS LUCROS: todos os recursos para preservar a vida da classe trabalhadora

É verdade que qualquer formação social para existir necessita de um modo de produção e, este, influenciará no modo de vida da sociedade.

Desde a queda do Muro de Berlim, o modo de produção capitalista tomou dimensões planetárias, em um processo chamado de mundialização pelos franceses e de globalização pelos ingleses, e passou a influir no modo e na qualidade de vida, de quase a totalidade, da população mundial.

No entanto, é bom ressaltar, que o modo de produção capitalista caracteriza-se por ter uma base econômica assentada em relações de produção marcadas pela exploração e pelo lucro.

E por uma superestrutura jurídico-política e ideológica voltada para garantir a unidade da sociedade a partir da dominação política de uma classe ou fração de classe, utilizando a ideologia (jurídico-política) para escamotear os interesses econômicos da classe dominante e transformá-los em interesses gerais do povo ou da nação, uma estratégia de submissão ideológica dos sujeitos concretos sem a necessidade do uso da violência física do Estado. Continua a leggere

A epidemia das emergências e a catástrofe como campo do possível

Texto original: Sull’epidemia delle emergenze e sulla catastrofe come campo del possibile, de Jack Orlando e Sandro Moiso

Tradução: Coletivo Voz Rouca BH

Disponível aqui.

O Coronavírus, um espectro que ronda o mundo. Não é mais aquilo do comunismo, nem sequer da pandemia; é antes de tudo aquilo da Catástrofe, e da sua articulação imediata: a Emergência. De fato, o medo despertado por essa epidemia não é totalmente compreensível se não for situado em sua estrutura geral e seus significados mais profundos. Não é por causa de uma pandemia que as pessoas tremem, é por causa do medo do colapso, por causa desse permanente sentimento de incapacidade de manter o modo atual de produção e de vida capitalista para sempre.
O coronavírus teve um timing perfeito, ocorrendo em meio a uma conjuntura que já apresentava o entrelaçamento do início de uma nova crise financeira e econômica macroscópica, com uma profunda crise política das instituições locais, nacionais e globais e com uma crescente tensão para a guerra, que apenas nos últimos dias assumiu uma nova aceleração, com massas de refugiados pressionando as fronteiras da Europa e com a Turquia tentando conquistar a Síria e ganhar uma primazia que não seria mais apenas regional.
Uma situação de muitas possibilidades que, no entanto, encontra parte das associações empresariais1 pronta para recebê-la, mas não encontra ninguém nas fileiras do “partido revolucionário”, se assumirmos sempre que ainda exista um. Isso ocorre porque parece que, de nossa parte, uma vez que as bússolas do conflito foram perdidas, resolvemos relatar a emergência seguindo a narrativa da mídia, sem entender suas complexidades ou as margens de ação que ela nos apresenta.

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Maschi, in carcere – Ecuador

Il carcere controlla, punisce, non sana, non rieduca e uccide. Proprio come la mascolinità egemonica. La mascolinità come l’abbiamo socialmente costruita fino ad ora è uno strumento di repressione interna ed esterna che fa male a tutte e a tutti. Il carcere è anche un suo prodotto.

Reportage dalle carceri dell’Ecuador dove centinaia di uomini stipati in celle fatiscenti tra violenze e soprusi. Gli stereotipi di genere, e i rispettivi ruoli, nuocciono anche ai maschi e il carcere è il luogo ideale per notare questi effetti. Ecco il racconti di chi è andato in prima persona a condividere con i carcerati ecuadoriani educazione sentimentale e antisessista.

di Simone Scaffidi e Silvia Verdino da L’Indiscreto

«È importante che voi vi sentiate accolti»

«Siamo esseri umani, abbiamo perso la libertà ma non la dignità. Se siamo qua è perché abbiamo commesso degli errori, succede a tutti e la stiamo pagando. Per noi è importante trascorrere bene questo tempo con voi ma è anche importante che voi vi sentiate accolti e rispettati». Pedro ha sessantacinque anni raccolti in una folta barba bianca ed è uno dei pochi nella stanza ad avere la pelle chiara. Lo incontriamo, insieme a un’altra ventina di detenuti, nella Cappella del carcere di Ibarra. Siamo venuti per proporre un laboratorio permanente per riflettere sul genere, la mascolinità e le relazioni di potere tra i sessi. Ma prima di partire vorremmo capire le esigenze delle persone che abbiamo di fronte.

Non siamo qui per impartire corsi, né imporre educazioni sentimentali. Non conosciamo il carcere e siamo consapevoli dei privilegi che ci siamo portati in valigia attraversando l’Atlantico. È la prima volta che entriamo in una struttura di detenzione, siamo curiosi ma anche intimoriti da quello che ci aspetta. Vorremmo provare, insieme al gruppo che incontreremo nei prossimi mesi, a creare uno spazio dove sentirci liberi e compresi. Dove – forse – parlare di mascolinità, genere e diversità sessuale. Il condizionale è d’obbligo perché prima vorremmo ascoltare le loro voci. Continua a leggere